“Los Piqueteros”

A CRISE ARGENTINA que culminou com a queda do presidente De La Rua trouxe ao palco político os "piqueteros", ou desempregados que ocuparam as ruas, praças e estradas e pararam o país.
Os fatos explicavam a ação, violenta e incendiária. A força desses fatos levou documentaristas a fixar a imagem e as razões deles. O destaque foi tanto que os "piqueteros" passaram a ser um movimento permanente, independente da superação da crise que lhes deu origem. Como era de esperar, foram sendo incorporados a partidos políticos e por estes usados como força de pressão.
Com isso passou a haver "piqueteros" de distintas cores, e em especial os "piqueteros" kircheristas, ligados ao casal presidencial. "Piqueteros" profissionais, prontos a cumprir tarefas políticas, com ou sem razões.
A greve dos professores de São Paulo, provavelmente partindo de razões econômicas justificáveis, foi vendo surgir em meio aos que protestavam uma coluna de "piqueteros" profissionais, mobilizados partidariamente, de forma a cumprir um papel nesse processo eleitoral, a comando dos que apoiam a candidatura do governo. E foram até justificados pelo presidente da República. As imagens gravadas e disponíveis mostram que os "piqueteros" são partidários e profissionais e cumprem um papel como braço longo daqueles interesses eleitorais.
A superação desse fato específico não deve deixar a sua análise cair no esquecimento. A incrustação no poder de dirigentes partidários e sindicais, de movimentos, ONGs e organizações no estilo, generosamente financiadas pelos cofres públicos, aponta para uma luta aberta, antidemocrática, violenta, com o objetivo de criar pressões, constrangimentos e desgastes para a oposição.
O que há de novidade nisso não é o uso político das reivindicações econômicas, há tanto tempo conhecido, mas uma organização paralela, paramilitar, permanente, que surge nesse processo eleitoral, formatada como os "piqueteros" profissionais. A Alemanha dos anos 20 traz memória similar.
Dois desdobramentos são institucionalmente preocupantes.
O primeiro, no próprio processo eleitoral, em que, em cima do palanque esteja a retórica apaziguadora, mas embaixo estejam os "piqueteros" orientados para os mesmos objetivos. O segundo é que se deixe essas milícias políticas prosperarem e, numa alternância política própria da democracia, venham, como elemento de desestabilização política, afetar as instituições democráticas brasileiras.
Que se corte o mal pela raiz a tempo e a hora para que a democracia brasileira siga seu rumo de aperfeiçoamento, longe dos estímulos "bolivarianos".