11 de outubro de 2017
RELATÓRIO DO PROGRAMA DA CONVENÇÃO NACIONAL DA JUVENTUDE DA CDU, REALIZADO EM DRESDEN, CAPITAL DA SAXÔNIA (ANTIGA ALEMANHA ORIENTAL)!
Bruno Kazuhiro, presidente da Juventude Democratas Brasil (primeira semana de outubro-2017)
1. Abertura à tarde com participação do Primeiro-Ministro da Saxônia (Governador), Sr. Stanislaw Tilich (CDU).
– Alemanha tem muitos vizinhos, mas na Saxônia focamos na República Tcheca e na Polônia, que fazem fronteira conosco.
– A democracia cristã era muito forte na Europa no passado. Foi perdendo espaço em países como Itália e Holanda. Mas nos mantemos fortes na Alemanha. Nesses países a direita mais radical ganhou nosso espaço, como o Forza Itália por exemplo. Não podemos deixar que isso ocorra aqui com a AFD,(Alternativa de extrema direita). Temos que seguir nos reinventando.
– A Saxônia é o estado que está melhor econômica e socialmente dentre os antigos da Alemanha Oriental. – O crescimento da AFD vem do medo. Medo de perder os empregos, dos refugiados, da globalização, da mudança, da competição no mercado com produtos da Ásia, etc.
– Estamos disputando espaços com carros asiáticos. Nossa indústria automobilística é o coração da Alemanha. – O sucesso alemão atual não pode ser visto como eterno. É preciso cuidar, manter, planejar, diminuir a insegurança que faz crescer a AFD.
– Como cristão também me pergunto: Que mundo é esse onde o sucesso só é medido pelo dinheiro? Todos só querem riqueza, esquecendo solidariedade, comunidade, esforço individual, etc.
– Jovens não foram tanto com AFD. Foram mais adultos, preocupados em perder o que têm, o emprego, a aposentadoria. Antes do nazismo a Saxônia era uma potência industrial. Após duas ditaduras, nazista e comunista, temos só subsidiárias de empresas de outros estados ou países. Decidem nosso futuro fora daqui. O povo não gosta disso.
– A CDU e Merkel falaram tanto de Brexit, Grécia, UE, que deixaram populismo crescer em casa. AFD vem disso. Vivemos num mundo complexo onde um jornalista vive fazendo tudo em seu iPad mas critica a queda na venda do jornal impresso.
2. Visita à Assembleia Legislativa da Saxônia. Matthias RöBler (Presidente da Assembleia estadual)
– Temos muita relação na Saxônia com República Tcheca, Hungria, Polônia, Eslováquia e Áustria. Há muito pouco desemprego na Alemanha e mesmo assim AFD teve muitos votos. O fenômeno populista europeu chegou aqui. A CSU enxerga com bons olhos uma democracia mais direta nos municípios como forma de dar protagonismo ao eleitor, mas a CDU não é tão favorável.
– Permitimos o crescimento da AFD quando abrimos fronteiras para mais de 1 milhão de refugiados. Sejamos francos, isso afetou principalmente as regiões mais pobres e rurais da Alemanha, onde as pessoas temem o desemprego. Serão as negociações mais difíceis da história recente em relação à coalizão. O SPD escolheu pensar nele ao invés da estabilidade do país e recusa repetir parceria. Nos resta a opção dos liberais e os verdes, mas ainda temos que nos entender com a CSU com quem também temos divergências. A CSU hoje é mais conservadora e a CDU mais de centro.
– Os verdes pedem que abandonemos os motores de combustão, mas isso arruinaria nossa indústria automobilística hoje. Como governar com eles? Um governo de minoria nunca ocorreu na Alemanha. Talvez ocorra agora com CDU + FDP.
– Não vejo a AFD se aliando a outro partido, mas no futuro quem sabe? AFD vive na crítica. Não oferece soluções. Se não resolver nada, não vai sobreviver por muito tempo.
– Dos mais de 1 milhão de refugiados, 800 mil são homens jovens do Iraque, da Síria e do Norte da África. Estatísticas criminais altas. Muitos não possuem documentos. 60% vêm por questões financeiras e não por perseguição política e religiosa como alegam para pedir asilo.
3. Visita a uma fábrica da Volkswagen focada na produção de carros elétricos. Visita à Prefeitura de Dresden. Detlef Sittel (Vice-prefeito de Dresden)
– Dresden está revitalizando prédios históricos, realizando obras contra enchentes do Rio Elba, investindo na divulgação como destino turístico, principalmente nas artes como atrativo cultural.
Dresden e Leipzig são as únicas cidades hoje na Saxônia onde a população cresce.
– Grandes eventos e mercados de Natal nos exigem esforço de segurança, prevenção de acidentes, patrulha policial, grupo antiterrorismo etc, normalmente com policiais à paisana, para não gerar sensação de insegurança.
– Temos mais problemas de criminalidade com refugiados do Norte da África do que do Oriente Médio. Muitos crimes são entre eles mesmos ou atuação no tráfico de drogas, principalmente entre aqueles que percebem que não conseguirão a cidadania alemã e assim vêem que não têm muito a perder.
4. Jantar com Deputado estadual da Turíngia, Stefan Gruhner, ex-presidente da Juventude em seu estado
– AFD, na minha opinião, teve 50% de seus votos sendo de protesto. O caso dos imigrantes, da abertura para sua entrada, sem dúvida enfraqueceu Merkel. Vale citar que ela não abriu as fronteiras, apenas não as fechou quando imigrantes começaram a se dirigir para a Alemanha depois de entrar na UE por outros países. Isso foi mal comunicado. – O tema da imigração estava claramente na pauta, na cabeça das pessoas, mas Merkel preferiu não citar muito, não se explicar. Acho que foi um erro. Perguntaram a ela onde estava o erro que causou crescimento da AFD. Ela respondeu que não via erro nenhum e que a CDU fez o melhor possível em tudo. Creio ter sido um equívoco. Deveria reconhecer erros e prometer corrigir.
– As pessoas não veem mais diferença entre SPD e CDU. Quem queria mudança votou AFD. O crescimento do FDP também tirou votos da CDU. CDU fez uma campanha boa, com bons projetos, mas de certa forma contrariando parte de sua base de eleitores.
– Uma coalizão com SPD seria ruim pois AFD lideraria a oposição. Mas ao mesmo tempo será difícil unir CDU, CSU, FDP e, principalmente, os Verdes. – O voto da Alemanha Oriental não migrar ideologicamente de esquerda para direita. Ele apenas segue sendo anti-establishment. Viam o partido A Esquerda (Die Linke) como anti-establishment e votavam com ele. Dessa vez o AFD representou a antipolitica, o protesto, o voto do descontente. Creio que isso inflou a votação da AFD.
5. Hartmut Vorjohann (Secretário de Educação e Juventude de Dresden)
– População em Dresden cresce ao contrário da maioria da Alemanha. Estamos tendo que construir e reformar escolas que haviam sido desativadas nos anos 90 quando população caía. A prefeitura paga os professores da Educação Infantil mas não os professores do ensino médio e fundamental, embora seja responsável pela estrutura das escolas em ambos os casos. Queremos reduzir o número de crianças por turma.
– Temos hoje problemas com crianças imigrantes que não falam a língua alemã. – O desemprego cai mas se concentra em certas áreas, normalmente com mão de obra pouco qualificada.
6. Professor Werner Patzelt (Cientista Político, Especialista em Partidos e Eleições) –
– Será mesmo inexplicável que tantos votem na extrema direita, ainda mais na Alemanha Oriental? Os que ficaram surpresos tinham premissas desconectadas da sociedade e da realidade pois a coalizão CDU-SPD colocou os insatisfeitos nos braços dos partidos menores, que eram a única oposição.
– A elite política acha que o protesto contra migrações é cruel, feito por pessoas sem coração, que é estupidez, atraso. Dizer isso apenas joga os eleitores mais a favor da AFD, os eleitores que são contra a ideia de um país multicultural. Merkel comunicou mal e pareceu ser mais a favor da imigração do que era. De, se dissesse ser contra, estaria dando razão ao AFD. Ficou encurralada.
– A CDU era de centro-direita e assim se apresentava. Caminhou para o centro, passou a dizer ser o centro. Tomou espaço da esquerda e achou que votos de direita viriam por falta de opção. A AFD entrou nessa brecha, embora estratégia tenha funcionado para enfraquecer muito o SPD.
– A elite alemã é majoritariamente da antiga Alemanha Ocidental mesmo nas cidades orientais. As pessoas do Oeste chegam transferidos por empresas, fundações, etc. Há um sentimento de ser melhor que o lado oriental, que seria menos educado, menos cosmopolita, menos desenvolvido. O lado oriental sente isso e se vê diminuído. Assim aumenta o voto de protesto nessa região. Eles estão mais insatisfeitos.
– Populismo possui 5 características básicas: Superficialidade demagógica, criticando sem soluções; Figura personalista como líder carismático; Ataque a uma suposta elite e promessa de defender os oprimidos; Discurso de defesa de um suposto “desejo do povo” se intitulando aquele que luta por esse desejo; Crise de representatividade política que abre brecha para os outros quatro elementos.
– AFD tem duas grandes correntes: Ser o novo partido conservador de direita, sem tanto extremismo, querendo governar um dia; ou ser o movimento de todos os que queiram, sejam radicais ou não, pensem como pensarem, populista. A primeira corrente começou mais influente mas foi perdendo espaço para a segunda que hoje lidera. Isso gera rachas e comportamento parlamentar do partido dependerá se os radicais se moderarão ou não no cotidiano do parlamento. – AFD tem relações com a Rússia mas não há nenhum indício de interferência dos russos nas eleições.
7. Terminam as palestras apresentadas pela Fundação Adenauer aos visitantes internacionais e começa a Convenção Nacional da Juventude da CDU.
8. Paul Ziemiak (Presidente Nacional da União Jovem, Juventude da CDU) – Precisamos debater a questão dos imigrantes, não adianta se esconder. É um tema que está sendo debatido e cobrado pela sociedade e temos que fazer cumprir a Lei, aceitando os que são refugiados políticos de verdade, mas quanto aos que não forem, têm que ser mandados de volta, mesmo que seja após um prazo definido claramente.
– Defendemos o debate sobre um novo governo onde colocamos nossas posições sem concessões excessivas para formar a coalizão. Precisamos de parceiros que pensem como nós e desejamos que essa conferência tenha isso em mente: que a Juventude deseja um acordo de coalizão que respeite os valores da CDU.
9. Jens Spahn (Vice Ministro Nacional de Finanças, ex-Membro da Juventude da CDU) – Olhar Erdogan, olhar Putin, nos mostra o quão sortudos somos de ter Merkel, porém, perdemos muitos votos, desabamos em alguns estados e temos que reconhecer e mudar isso. Não podemos ignorar.
– Dizem que acabou o tempo dos partidos populares, que temos que aceitar isso, que a direita populista cresceu na Europa toda e assim será. Não concordo. A CDU deve seguir agregando todos e não queremos ter um partido radical à nossa direita no Parlamento, temos que ocupar ese espacio.
– A União é justamente a diversidade, o conjunto de diferentes ideias que se unem em prol do país, mas deixemos bem clara nossa diferença para a esquerda: temos orgulho da Alemanha, de nossos valores, não queremos a destruição de nossa cultura nacional. A nossa Juventude deve falar das questões difíceis. O partido não fala. Acham que perdemos votos por quê?
– Temos nossas obrigações humanitárias mas a migração e a integração só funcionam com o aceite da população. – Temos que dizer ao eleitor que entendemos o recado e vamos corrigir. Nossos parceiros de coalizão terão que entender que também precisam fazer isso para dar satisfação aos seus eleitores. Somos abertos, somos liberais, mas não somos idiotas.
10. Ruben Schuster (Secretário de Relações Internacionais da Juventude CDU)
– Temos um forte trabalho internacional. A nível europeu com a Juventude do PPE (YEPP) e mundial com a Juventude da IDU (IYDU). Isso é fundamental, por exemplo, quando nossos jovens se elegem nas cidades, nos estados, e possuem essa experiência internacional. Mais de 100 convidados internacionais vieram para nossa convenção, isso mostra a relevância da nossa Juventude.
– Ganhamos a eleição e perdemos ao mesmo tempo. Queremos ser protagonistas na discussão dos novos rumos do nosso partido, pois somos a ala partidária mais ativa de todas.
11. Chanceler Angela Merkel
– Nosso papel é lutar por segurança garantida para todos. Temos que definir qual o tipo de integração que os imigrantes terão, mas sempre respeitando a Lei. Qualquer pessoa que desrespeitar a nossa lei, seja imigrante ou não, será punido. Tenho que elogiar as iniciativas do presidente francês Macron.
– A AFD aponta problemas mas só a CDU e a CSU sabem resolver os problemas. O mundo hoje é muito complexo, nenhum país pode resolver tudo sozinho. Parabéns à Juventude pelo congresso, tenham certeza de que o partido está vendo e valorizando. Prometemos defender os valores da CDU e da CSU na coalizão.
– Nós não queremos fronteiras fáceis de romper, queremos fronteiras que nos protejam, mas têm que ser as fronteiras europeias, não adianta ser apenas nas fronteiras da Alemanha.
– Se não tratei devidamente da questão dos imigrantes na campanha, lhes peço desculpas. A juventude deve nos ajudar a trazer mais jovens e a explicar a eles da necessidade de se capacitar, se digitalizar. Jovens têm o direito de questionar a Chanceler sobre temas políticos e alguns o fazem de forma contundente.
Perguntas:
P- Somos o único partido popular, do povo. Isso é mérito seu Chanceler, agradecemos a você. Mas não aprovamos seu ministério, pessoas ultrapassadas que estavam com a senhora na sua coletiva após a eleição. O discurso de que não se sabe o que poderíamos ter feito diferente foi péssimo, um erro.
P- A senhora concorda que tivemos uma derrota nas eleições? Concorda em sermos de centro-direita ao invés de começar a defender tudo? Está de acordo com a resolução de nossa Juventude de não ser concedida cidadania alemã a quem a Lei não permite?
P- Queremos mensagens claras no acordo de coalizão. Estávamos reticentes quanto a esta coalizão, mas a senhora nos deu esperança de que possa funcionar. Mas temos que marcar nossos valores.
P- Como a senhora pretende melhorar a comunicação do governo?
Respostas:
– Não fiquei satisfeita com o resultado, não pensem isso. Eu quis dizer que lutamos ao máximo para atingir nosso objetivo e eu não poderia naquela coletiva desvalorizar uma vitória, os nossos eleitores ou parecer que estava chocada.
– Uma frase foi tirada fora do contexto, mas terei que viver com isso. Quero mostrar força pensando exatamente nas conversas da coalizão, por isso mesmo comemorei a vitória.
– Eu defendo os nossos ministros, eles fizeram um grande trabalho, mas prometo renovar a equipe do nosso governo gradualmente.
– Quero dizer a vocês que política não é apenas tirar selfies como alguns dos nossos adversários fazem, política demanda trabalho, competência e dedicação.
– Queremos sim que não haja um partido à direita da CDU/CSU, mas não podemos atingir isso traindo nossos valores. Somos democratas cristãos, liberais-conservadores.
12. Alexander Dobrindt (Ministro do Transporte e Infraestrutura)
– Nosso papel é ocupar o espaço do centro e da direita democrática, não deixemos os votos para outros, não deixemos os eleitores acharem que não há espaço para eles em nosso partido. CDU e CSU vão conversar e analisar a agenda para negociação de coalizão com os demais partidos.
– As migrações sem dúvida serão um tema central da negociação. As pessoas vêm para Alemanha atrás de uma vida melhor, eu entendo isso e simpatizo. Muito embora nosso espírito humanitário seja sem limites, a possibilidade de integração, o sistema social e a empregabilidade não são ilimitados.
– Não quero só falar de migração a cada momento, quero ter tempo também de falar sobre melhorar a vida dos alemães, sobre inovação e desenvolvimento sustentável. Não tenhamos medo da automação, da digitalização, deixemos a baboseira de esquerda de lado, temos que aprender a competir no mercado cada vez mais tecnológico.
13. Thomas de Maiziere (Ministro do Interior)
– Nunca se questionou tanto a qualidade dos serviços que são de responsabilidade do Estado como atualmente. Tudo está cada vez mais complexo e a política também. Os alemães estão com medo do futuro porque estão felizes com aquilo que possuem no presente.
14. Annegret Karrenbauer (Governadora do Sarre)
– É nosso papel defender a Europa, defender o Euro. Nós sabemos bem o que aconteceu quando focamos em nossas diferenças. Não queremos que nossos filhos passem pelo que nós passamos com os efeitos do nazismo e do comunismo.
– A esquerda pensa primeiro no partido e depois no país. Por isso não querem repetir a coalizão. Vão perder a eleição novamente em 2021. Willy Brandt estaria envergonhado do SPD de hoje.
– O SPD estar mal não pode ser suficiente pra nós. Nós temos que mirar sempre 40% dos votos, 50%. Somos o partido popular. Nossa tarefa é essa, defendendo nossas raízes e ocupando o Centro.
– Temos que avançar ainda em diversos setores. Na área digital por exemplo, não podemos ter a Estônia como nosso exemplo e apenas seguir. Temos que fazer melhor.
– Após 27 anos, nós não deveríamos mais distinguir entre Alemanha Ocidental e Oriental. Os nossos problemas têm que ser tratados como coletivos. Não podemos na Alemanha Ocidental achar que o AFD é um problema da Alemanha Oriental.
– O papel da Juventude da CDU é tirar a CDU da zona de conforto. Melhor que nossa Juventude questione do que sermos surpreendidos nas urnas por termos perdido contato com a sociedade.
15. Entrega de prêmios para os jovens da CDU que mais atuaram no Twitter e no Facebook em prol da Juventude nos últimos anos. Convite ao palco dos jovens que trabalharam na organização do evento. Encerramento com hino nacional alemão.