23 de outubro de 2017
EX-BLOG ENTREVISTA CESAR MAIA: LIBERALISMO E LIBERALISMO!
1. Ex-Blog: Em reuniões, você tem repetido que os políticos que defendem o liberalismo são, na verdade, de dois tipos de políticos liberais. Poderia explicar?
CM: Eu me dei conta disso na votação da privatização da telefonia. Na hora da votação, o deputado Fernando Gabeira –agrupado entre os deputados ditos de esquerda- foi ao microfone e disse que votaria a favor da privatização.
2. Ex-Blog: Qual a justificativa?
CM: Ele disse que estava votando a favor do cidadão que, com o sistema estatizado, não se tinha acesso aos serviços que poderia ter. E realmente ocorreu assim. Os números enormes e o alcance da telefonia celular, dos smartphones, demonstram isso. Todos passaram a ter contato direto e amplo. Serviços pessoais e residenciais criaram verdadeiras “empresas pessoais”.
3. Ex-Blog: O que distinguiria os dois tipos de liberalismo que você tem citado?
CM: Melhor seria dizer duas visões de liberalismo. Numa delas, que é a que normalmente se difunde, o foco é a empresa. Esse tipo de liberalismo critica o controle estatal e defende a privatização de olho na liberdade empresarial, e na competitividade. De uma forma simples, se poderia dizer que o cidadão é visto como consequência da liberdade empresarial e, dessa forma, da competitividade.
4. Ex-Blog: Isso está errado?
CM: Depende. Mas, de qualquer forma, é uma visão vertical, vale dizer, da empresa em cima e do cidadão embaixo como consequência.
5. Ex-Blog: E o outro tipo de liberalismo que você cita?
CM: É o que tem o cidadão como foco, as necessidades do cidadão e o acesso a serviços de melhor qualidade e mais baratos. Com a mesma renda salarial, se isso ocorre, há um evidente aumento da renda salarial do cidadão.
6. Ex-Blog: O que muda com esse foco alternativo no cidadão?
CM: Muda, a começar, pela escala de prioridades. A visão liberal tradicional é em geral fiscalista, ou seja, olha para as privatizações como forma de reduzir o gasto público e de se garantir maior acesso a investimentos.
7. Ex-Blog: Isso está errado?
CM: Não se trata de estar errado ou certo, mas de se ter o foco concentrado na atividade empresarial estatal, pública ou privada. De ser esta a prioridade.
8. Ex-Blog: E o foco alternativo no cidadão?
CM: Nesse caso, a análise parte dos serviços que deveriam atender aos cidadãos. Telefonia, como citei, é um exemplo que se tornou óbvio após a privatização. Os serviços aeroportuários é outro exemplo. A qualidade das rodovias é outro. Os planos de saúde, liberando a saúde pública para os que mais precisam, deveria ter sido outro. O transporte público. Isso chega a questão ambiental, a urbanização, etc.
9. Ex-Blog: Mas em certos casos de privatização os serviços não têm melhorado para os cidadãos.
CM: É verdade, e isso acontece porque os governos muitas vezes não entendem que ao priorizar e ter como foco o cidadão, a privatização deve ter como consequência a melhoria e amplitude, seus controles, as normativas e a fiscalização sobre esses serviços. O governo, ao não ser o gerador dos serviços quando o foco é o cidadão, deve se qualificar e ampliar suas responsabilidades fiscalizadoras e normatizadoras.