16 de novembro de 2017
“DITADORES JÁ FAZEM ESCOLA”!
(Fareed Zakaria – Washinton Post/Estado de S. Paulo, 13) 1. As notícias que chegam da Arábia Saudita são alarmantes. Num país famoso por uma estabilidade que chega ao ponto da estagnação, o príncipe da Coroa, de 32 anos, prende seus parentes, congela suas contas em bancos e os demite de postos-chave. Mas examinando a questão mais de perto, isso não deve causar surpresa. Mohammed bin Salman aplica o que se tornou o novo processo operacional padrão adotado por autocratas em todo o mundo. A fórmula foi aperfeiçoada por Vladimir Putin quando chegou ao poder na Rússia.
2. Em primeiro lugar, a ordem é amplificar as ameaças externas de modo a reunir o país em torno do regime e dar a ele poderes extraordinários. Foi o que fez Putin no caso da guerra da Chechênia e o perigo do terrorismo. Em seguida, investir contra centros de influência rivais dentro da sociedade, que na Rússia são os oligarcas.
3. Em seguida, insistir na necessidade de eliminar a corrupção, reformar a economia e oferecer benefícios para o cidadão comum. Putin teve êxito nesse último aspecto em parte graças aos preços do petróleo, que quadruplicaram durante a década seguinte. Por último, controlar a mídia por meio de medidas formais e informais. Na Rússia, a mídia livre que floresceu em 2000 foi submetida a um controle estatal similar aos tempos da União Soviética.
4. Naturalmente, nem todos os elementos dessa fórmula se aplicam a todos os lugares. Talvez o príncipe Mohammed seja de fato um reformador. Mas a receita para o sucesso político que está seguindo é similar à adotada em países tão díspares como China, Turquia e Filipinas. Seus líderes usam os mesmos ingredientes – nacionalismo, ameaças externas, combate à corrupção e populismo – para se fortalecer no poder. E quando o Judiciário e a mídia são vistos como obstáculos a sua autoridade ilimitada, são sistematicamente debilitados.
5. Em seu livro The Dictator’s Learning Curve (A Curva de Aprendizagem do Ditador, em tradução livre), publicado em 2012, William Dobson profeticamente explicou que a nova safra de autocratas em todo o mundo, para manter o controle, criou um conjunto de artimanhas muito mais inteligentes e sofisticadas do que as usadas no passado. “Em vez de prender membros de um grupo de direitos humanos, os déspotas de hoje utilizam fiscais da Receita e inspetores de saúde para calar grupos dissidentes. As leis são escritas num sentido amplo e depois usadas como bisturi contra grupos nos quais o governo vê ameaça”.
6. As ditaduras centralizadas clássicas foram um fenômeno do século 20 e nasceram das forças centralizadoras e tecnologias da era. “Os ditadores modernos atuam no espectro mais ambíguo que existe entre democracia e autoritarismo”, escreveu Dobson. Eles mantêm os elementos da democracia – Constituições, eleições, mídia –, mas trabalham para priválos de sentido. E se empenham em manter a solidariedade nacional e a sua popularidade. Naturalmente, esse nacionalismo estimulado pode sair do controle, como ocorre na Rússia e pode suceder na Arábia Saudita, agora envolvida numa guerra feroz com o Irã, consumada com um conflito por procuração acirrado no Iêmen.
7. Em vez de os déspotas serem influenciados pelos democratas, são os democratas que estão subindo na curva de aprendizagem. Veja o caso da Turquia, país que no início da década de 2000 parecia seguir num passo firme para a democracia e o liberalismo, ancorada no desejo de se tornar membro da União Europeia. Hoje, seu líder, Recep Tayyip Erdogan, eliminou praticamente todos os obstáculos ao seu controle total. Debilitou o Exército e a burocracia, adotou várias medidas regulatórias e fiscais contra oponentes na mídia e declarou como terroristas os membros do grupo de oposição dos Gulenistas. Os governantes das Filipinas e da Malásia vêm adotando o mesmo manual de conduta.
8. Este não é o retrato da democracia em muitos lugares, certamente, mas essas tendências são observadas em áreas distantes do mundo. Donald Trump, por sua vez, tem ameaçado a NBC, CNN e outras organizações com várias formas de medidas governamentais, além de atacar juízes e agências independentes e desprezar normas democráticas arraigadas, de modo que os EUA também estão ascendendo nessa curva de aprendizagem.