07 de dezembro de 2017
BBC (01/12) ENTREVISTA CESAR MAIA! PARTE 3!
1. BBC Brasil: Um candidato deve querer em seu palanque em 2018 o presidente Temer, cujo governo tem 3% de aprovação?
Maia: O presidente Temer está exclusivamente focalizado com o seu governo. Portanto, com a base ampla que tem, não pode participar de campanha. Se eu tivesse na Alemanha eu responderia. No Brasil, é difícil dizer. Tem aquela expressão do James Carville (estrategista da campanha de Bill Clinton): “É a economia, estúpido!”. Ela não se aplica mais de forma generalizada. Tem muitos casos em que a economia se descola da política, Trump é um exemplo. Temer é outro exemplo. A política descolando da economia. O Temer vai crescer até o final do governo? Vai. Quanto? Não sei. Vai que vai de 5% pra 15%. Não acho que Temer vá ser um não-eleitor. Não acho que vá ser eleitor. Temer vai jogar tudo para concluir seu governo, demonstrando que seu compromisso de realizar as reformas, relançando o país, está sendo cumprido. Vai deixar o julgamento dele para a história.

2. BBC Brasil: O senhor é um entusiasta do sociólogo francês Jean-Gabriel de Tarde…
Maia: Sim (interrompe), eu apliquei e deu certo. O texto fulcral dele se chama “Les Lois de l’Immitation”. Para Gabriel de Tarde, a opinião pública se forma através de fluxos de opinamento que vão contaminando opinião. E tem os personagens: o louco, que abre o fluxo; o sonâmbulo, que é a figura mais importante na multiplicação dos fluxos de opinião, porque passa as coisas pra frente, independentemente de passar criticamente ou não; e o idiota, que não se dá conta de que a informação chegou e não faz nada. O louco não se comunica com outro louco, os dois são sábios. Tarde explica – isso no fim do século 19 – que os personagens importantes não são mais os grandes formadores de opinião, mas sim os pequenos repassadores. Alguém lê o jornal hoje e, das informações que recebe, guarda algumas. Dessas, testa uma ou outra com pessoas cuja opinião, para ela, é relevante. Uma professora, uma amiga, o cara da padaria. Esse é o sonâmbulo, ele passa pra frente, e aquilo ganha enorme velocidade.

3. BBC Brasil: Quem vai decidir a eleição? Os loucos, os sonâmbulos ou os idiotas?
Maia: Os sonâmbulos, evidentemente. Agora, que pescaria eles vão fazer? A pescaria dos sonâmbulos é muito diferente da dos loucos. Os loucos são os sociólogos, os não sei das quantas. Esses fluxos de opinamento, como são milhões, quando se concentram em alguma coisa por alguma razão, às vezes pela televisão, agora pelas redes, geram um poder multiplicador enorme. As redes sociais produziram um fato novo na política e na sociedade. São um processo de empoderamento de indivíduos, não caracterizam uma organização de pessoas. Desintegraram a força dos sindicatos e da opinião pública. O indivíduo prescinde de intermediário, as redes cumprem esse papel de intermediário para ele. Cabe ao político, ao candidato, perceber como esses fluxos estão entrando e devolver o fluxo às redes.

4. BBC Brasil: O senhor se identifica mais com quem?
Maia: Eu me sinto uma figura híbrida. Louco, em raríssimos momentos. Sonâmbulo, quase sempre. Acordo cinco horas da manhã, leio meus jornais, e faço minha seleção. Tenho três e-mails, recebo muita coisa. Meu trabalho como vereador é inteiramente sonâmbulo. Só elimino o absurdo. Em cerca de 95% dos projetos de lei que apresento, dos requerimentos, simplesmente uso o fluxo que chegou.