22 de fevereiro de 2017

ANTICORRUPÇÃO E ANTIPOLÍTICA!

1. Na saúde de uma pessoa, a identificação de um mal, uma doença e o combate, o seu tratamento, atuam ao mesmo tempo como causa e efeito. Ou seja, ao se eliminar o mal se recupera a saúde.

2. A corrupção é uma doença grave da saúde política. Ninguém tem dúvida sobre isso. Mas o combate a ela e -mesmo- sua hipotética eliminação não tem como consequência simultânea à saúde política no sentido do funcionamento adequado de um regime democrático.

3. A convivência com a corrupção nos organismos políticos é uma doença que pode ser degenerativa. Mas sua eliminação não constrói automaticamente uma democracia sã, uma democracia representativa, um estado de direito democrático, que conduzam um país ao progresso e a justiça social.

4. Quando se atua apenas no combate à corrupção sem atuar ao mesmo tempo na construção de um organismo político que produza desenvolvimento social, econômico e institucional, se corre o risco de construir um binômio: esperança e decepção.

5. A decepção naqueles que imaginavam que ao se somar com entusiasmo ao combate à corrupção estavam ao mesmo tempo atacando as causas e produzindo efeitos, pode, por ingenuidade ou por entender que a antipolítica é um efeito desejado, provocar o inverso do que se deseja: vertentes do populismo e do autoritarismo.

6. É fácil que uma oposição política que não seja alternativa de poder, nem queira construir-se como tal, conseguir os espaços de mídia e aparentar que sua retórica anticorrupção seja em si o efeito.

7. Quando na eleição seguinte -e nas seguintes- esses vetores de oposição mantêm-se com bancadas minúsculas, deve-se perguntar se o problema não está apenas nas distorções trazidas pelo poder econômico, por exemplo, como alegam. O provável é que o problema esteja na retórica pela retórica, no moralismo, na antipolítica.

8. No máximo servem aos meios de comunicação que precisam dos brados dessa oposição -às vezes cínica- para apresentar uma falsa dramatização governo x oposição. Mas há sempre que lembrar: a mídia não é e nem quer ser alternativa de poder. Cumpre o seu papel de controle de qualidade das ações políticas. Mas deve estar atenta aos riscos de exaltar a antipolítica e o moralismo.

9. O Brasil tem avançado muito na luta contra a corrupção política. Mas pouco na construção de novas instituições políticas. A Itália avançou muito na luta contra a corrupção política e pouco ou nada na construção de novas instituições políticas. Aí estão ou estavam Berlusconi e o MV5 como símbolos.